Fã clube de Elena Ferrante

A FEBRE FERRANTE na TV e no streaming

por Paulo Lima

O êxito literário de Elena Ferrante, obtido com sua Tetralogia Napolitana, destoa do caminho seguido pela maioria esmagadora dos seus pares, uma vez que ela, deliberadamente, ausentou-se dos holofotes obsessivamente perseguidos pelo mercado dos livros como condição do sucesso. Elena Ferrante optou pelo anonimato. Exceto por seus editores, ninguém sabe quem ela é, ninguém jamais a viu. Sua postura anticelebridade teria contribuído para que sua obra se transformasse num fenômeno?

O documentário A Febre Elena Ferrante (Ferrante Fever), do diretor Giacomo Durzi, procura esmiuçar as razões que conduziram a escritora ao topo da literatura contemporânea. Escritores e editores, italianos e americanos, incluindo uma tradutora e um cineasta, discutem no filme características da obra que tem como cenário principal a cidade de Nápoles.

São depoimentos entusiasmados de leitores que não escondem a condição de fãs incondicionais da escritora. Essa ferrantologia está evidenciada já na abertura do documentário, quando Giacomo Durzi se vale de uma opinião expressa por Hillary Clinton em um podcast, no qual a ex-Primeira-Dama estadunidense afirma que teve que se conter após ler o primeiro livro da escritora.

Escritores consagrados como Jonathan Franzen e Roberto Saviano destacam os traços importantes do universo literário de Elena Ferrante, que tem o feminino e a questão da família – sobretudo a relação entre mãe e filha – como centro, porém invertendo arquétipos napolitanos típicos. Franzen, por sua vez, diz que foi capturado pela tetralogia de Ferrante de tal modo que a consumiu em quinze dias. Ambos se comportam como fãs de carteirinha.

Recursos de animação, trechos de filmes baseados nos romances de Ferrante, além de algumas das ideias da própria escritora, reunidas no livro La Frantumaglia (existe edição brasileira), narradas por uma atriz, formam a estrutura do documentário.

No cerne das análises, contudo, está a questão extraliterária da decisão de Elena Ferrante em se tornar escritora sem seguir o roteiro de uma carreira que a exporia ao circuito das celebridades, condição que hoje está umbilicalmente ligada ao sucesso de um escritor. Roberto Saviano observa que o anonimato, ironicamente, acabou se tornando um capítulo importante da obra de Elena Ferrante.

Um exemplo claro de que a imagem de um escritor, hoje, é uma condição sine qua non para assegurar sua visibilidade literária é o fato de que o nome de Elena Ferrante foi preterido numa edição do Prêmio Strega, o mais importante da literatura italiana, quando ela era destacadamente a favorita a vencê-lo. O prêmio foi dado a Nicola Lagioia, que participa do documentário e endossa a decisão de Ferrante de permanecer no anonimato. O evento, e sua repercussão, é mostrado no documentário.

A literatura de Elena Ferrante recebeu uma crítica elogiosa de James Wood, o crítico americano mais importante em atividade, impulsionando a penetração dos livros da escritora italiana nos Estados Unidos. O documentário traz um breve depoimento em áudio de James Wood. Por sua relevância, talvez merecesse um espaço maior.

A Febre Ferrante traz indubitavelmente ares de um fã clube. Seguramente vai agradar aos admiradores da escritora. E certamente poderá conquistar novos leitores.

Paulo Lima

>> A Febre Elena Ferrante já pode ser visto no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro TV+ e no site oficial da plataforma (CurtaOn.com.br). A estreia no Canal Curta! é nesta quinta, 26 de março, às 21h30. Reprises sexta-feira, dia 27, à 01h30 e às 15h30; sábado, dia 28, às 16h40; domingo, dia 29, às 21h; segunda-feira, dia 30, às 09h30.

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